Quatro movimentos para quem tem filhos pequenos ou já criados: nunca é tarde demais para recomeçar
“Entendi tudo, mas como eu ativo isso na vida que eu tenho hoje?”
Essa é a pergunta que mais escuto depois de falar sobre desejo, sobrecarga, sobre tudo que apaga a mulher na maternidade, a mesma dor que leva tanta mulher a pesquisar ‘como me priorizar’ tarde da noite. Entender o problema é uma coisa. Descobrir como se priorizar dentro da rotina que você já tem, com os filhos que você já tem, na fase em que eles já estão, é outra completamente diferente.
A boa notícia: se priorizar não é um projeto que espera a vida ficar mais leve para começar. Não importa se seus filhos têm dois anos, doze, ou já saíram de casa. Existem quatro movimentos concretos que cabem na vida como ela é hoje, não na vida que você teria se sobrasse mais tempo.
A fase mais operacional, quando os filhos ainda demandam presença constante, realmente pesa mais. Ela passa. Mas enquanto isso, você não precisa ficar parada esperando um respiro que ainda não chegou. Os quatro movimentos abaixo permitem passos pequenos, que cabem na vida que você tem agora.
Liderança: priorizar a si mesma nas decisões que já são suas
Liderança materna é inspirar nossas pessoas queridas e esse processo geralmente inclui a gestão da própria rotina e a da família inteira: administrar horários, prever problemas, sustentar acordos. O que muda é quando você passa a se incluir nas decisões que já toma e influencia pelo exemplo, em vez de seguir agindo como se sua preferência não importasse. Não é mandar em todo mundo.
Um sábado de manhã, uma pessoa me pediu para customizar um produto de ticket baixo com entrega no mesmo dia. Meu primeiro impulso foi indignação. Mas o que me fez recusar sem culpa não foi a indignação, foi a clareza: meu tempo com meus filhos valia mais do que a urgência do pedido descabido de outra pessoa, só porque ela é cliente. Priorizar a si mesma, muitas vezes, começa exatamente aí: numa decisão pequena, onde sua palavra já pesa, mas você ainda pede desculpa antes de decidir.
Ação: dar existência ao desejo antes de realizá-lo por inteiro
Ação é tirar uma vontade do estado de espera absoluta. Não é sobre academia ou rotina fitness. É sobre dar existência ao desejo antes de conseguir realizá-lo por inteiro, é sobre se priorizar em doses pequenas, não em blocos de tempo que você não tem.
O psicólogo Peter Gollwitzer mostrou, em pesquisas sobre planos de ação, que intenções específicas, definir quando, onde e como agir, aumentam muito a chance de a ação realmente acontecer, comparado a só desejar algo em geral. Não é o tamanho do plano que importa. É a existência de um primeiro passo concreto.
Vi isso de perto quando meu filho quis fazer um bolo de banana que viu numa receita. Faltavam ingredientes, o tempo era curto, ele tinha compromisso à noite. Poderia ter esperado o dia perfeito. Em vez disso, fez com o que tinha, substituiu o que faltava, e o bolo ficou uma delícia. Não pergunte qual é o menor passo para chegar lá. Pergunte qual é o menor passo que pode te ajudar a descobrir se é o caminho que te aproxima do jeito que você quer viver.
Repertório: você não começa do zero, recomeça com o que já construiu
Repertório é valorizar sua própria história, mesmo a parte que parece ter ficado para trás.
Passei anos no corporativo dando suporte a uma comissão de ética, lendo filosofia e psicologia para traduzir dilemas complexos em decisões cotidianas. Achei que aquilo tinha ficado só pro trabalho corporativo. Não ficou. É esse mesmo repertório que hoje me ajuda a responder, sem julgamento, mulheres que me escrevem em dúvida se estão certas ou erradas diante de decisões difíceis com a própria família. Que parte da sua história você tem tratado como passado, mas ainda pode participar do seu futuro?
Relacionamento: a qualidade do que você vive também abre espaço
Relacionamento é entender que a qualidade do que você vive com quem está por perto impacta diretamente o espaço para o seu desejo.
Acompanhei uma mulher que passou anos sendo, nas palavras dela, motorista de todo mundo: buscando filho, levando marido, sem um horário fixo que fosse só seu. Quando começou a dizer não, mesmo para coisas pequenas, a reação da família foi de choque. Como assim não pode, sempre pode. Ela persistiu, com consistência, não com discurso. Aos poucos, a dinâmica em casa mudou, porque quando você se posiciona, as pessoas ao redor também se movem. Fazer de si mesma uma prioridade não isola você das relações. Muda a forma como elas funcionam.
Como se priorizar sem culpa, na prática
Liderança, ação, repertório e relacionamento não são etapas que se cumprem uma vez e terminam. Você se inclui numa escolha. Experimenta um movimento. Reconhece o que aquilo revela. Escolhe de novo. E protege esse espaço, principalmente da culpa que insiste em aparecer, como se priorizar a si mesma sem sentir culpa fosse uma contradição, quando na verdade a culpa pode continuar presente enquanto você age assim mesmo.
Se você chegou até este texto depois de ler sobre não saber o que quer ou sobre se sentir perdida, esse é o ponto onde a reflexão vira prática. Você não precisa esperar os filhos crescerem para começar, e também não precisa se sentir atrasada se eles já cresceram e você só está começando agora. Precisa só de um passo pequeno o suficiente para caber na vida que você tem hoje.

Silvia Motta apaixonada por comportamento e desenvolvimento humano e trabalha por mais saúde e qualidade de vida das mulheres, sobretudo as mães.
