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Reflexões de mãe para mãe

Não sei o que quero da vida: por que isso ficou tão difícil?

Mulher refletindo sobre não sei o que quero da vida, representado por um ponto de interrogação

Você não perdeu o desejo. Só deixou de ter espaço para ouvir o que ele diz entre uma demanda e outra

Quando foi a última vez que alguém te perguntou o que você quer, não o que precisa fazer, o que você quer? Se a resposta demorou a vir, ou se a primeira coisa que passou pela sua cabeça foi “não sei o que quero da vida”, você não está sozinha, e não há nada de errado com você por não saber responder.

Essa frase, não sei o que quero da vida, aparece com uma frequência que diz muito sobre o momento que estamos vivendo, mas quase nunca é levada a sério. Costuma ser tratada como falta de propósito, indefinição, ou até um sintoma de crise. Na maioria das vezes, é outra coisa: o resultado de anos respondendo ao que os outros precisavam, até deixar de ouvir o que você mesma quer.

Este texto não promete a resposta em poucos parágrafos. Mas explica por que ela sumiu, e por onde recomeçar a procurar.

Não sei o que quero da vida: por que essa frase aparece com tanta frequência

Imagine a cena. Você entra no banho, o único cômodo da casa que tranca a porta, e mesmo assim sua cabeça já fugiu dali para a lista do dia: quem busca quem, o que descongela pro almoço, se o boleto caiu. Você resolve tudo isso ainda com o xampu na cabeça, antes de decidir uma única coisa para você.

De manhã, aparece um imprevisto que só você pode resolver. De tarde, trabalho. De noite, mais uma rodada de decisões que não são suas, mas passam pela sua mão. Quando finalmente senta no sofá, exausta, você não teve um dia difícil. Teve um dia normal, inteiro tomado por perguntas de todo mundo, menos a sua.

Se isso é normal, em algum momento isso foi normalizado sem que ninguém percebesse. E não é falha de personalidade. É uma lógica aprendida cedo, que ensina a colocar todo mundo à frente de você, até que “o que eu quero” vira uma pergunta que você simplesmente parou de fazer a si mesma. O desejo, como pulsão de vida, não desapareceu. Ele foi ficando sem espaço, até que não sei o que quero da vida virou a resposta automática, porque essa é a única pergunta que ninguém mais faz por você.

O que a Teoria da Autodeterminação e a diferença entre “querer” e “gostar” explicam

Existe uma tentação de tratar esse impasse como frescura, como se reativar o próprio desejo fosse só “se permitir” um momento pontual de prazer. A ciência aponta para outro lugar.

Pesquisadores como Kent Berridge e Terry Robinson mostraram que desejo e prazer funcionam em sistemas diferentes no cérebro: a diferença entre “querer” e “gostar”. É possível gostar de algo sem sentir vontade de buscá-lo, e desejar algo sem necessariamente gostar do resultado. Isso ajuda a entender por que responder ao que você quer é mais difícil do que responder do que você gosta: são circuitos diferentes, e um deles pode ficar em silêncio por anos sem que nem você mesma perceba.

A Teoria da Autodeterminação, desenvolvida por Edward Deci e Richard Ryan, vai na mesma direção: fazer escolhas que partem de você é uma necessidade psicológica básica, não um capricho. Ao lado da competência e do pertencimento, a autonomia é um dos três pilares que sustentam o bem-estar humano. Não é sobre luxo. É sobre funcionamento.

Isso também aparece fora do consultório. O estudo Primavera X, conduzido pela Consumoteca em parceria com Thaís Farage, ouviu 1.200 mulheres de 45 a 60 anos no Brasil. 69% delas sentem falta de produtos e serviços pensados para sua geração. Apenas 32% se sentem representadas pela mídia. E 98% seguem trabalhando em alguma meta pessoal ou profissional para os próximos anos. Elas não querem rejuvenescer. Querem seguir em movimento, com autonomia.

Como descobrir o que eu quero quando a resposta não vem pronta

Não sei o que quero da vida não é o mesmo que não ter mais desejo algum. Muitas vezes é mais fácil dizer o que você não aguenta mais do que nomear o que quer no lugar. Recusar limpa o terreno, mas não constrói a casa. Se a busca parar aí, você troca uma forma de apagamento, fazer tudo, por outra, evitar tudo, e continua sem rumo próprio.

Como descobrir o que eu quero não começa com uma pergunta grande demais para responder de uma vez. Começa pequeno: três coisas que você não quer mais, e ao lado de cada uma, uma frase do que quer no lugar, mesmo vaga ou pequena demais para valer. Como saber o que eu quero raramente vem de uma reflexão isolada. Vem de prestar atenção ao que ressoa quando você experimenta algo pequeno, sem cobrar de si mesma a resposta perfeita. Esse caminho de reconexão aos poucos é o que aprofundo em Como se reconectar consigo mesma.

Uma amiga me disse isso num café da manhã de sexta-feira que não tínhamos há tempos: que eu acabo vivendo exatamente o que falo. Minha geração já entende a parentalidade consciente, mas ainda não construiu um novo modelo de viver. Esse modelo não chega pronto. Vem de uma sucessão de permissões, pequenas, ao longo do tempo: permitir-se sair de casa, colocar um limite, se dar o tempo que antes parecia proibido, não saber ainda e continuar se perguntando mesmo assim.

Não sei o que quero da vida? Você não perdeu o desejo, só o espaço

Você não está atrasada. Não existe uma idade certa para voltar a se perguntar o que quer. Mesmo se seus filhos pequenos ocupam a maior parte do seu tempo, esse espaço pode abrir agora, em passos menores e mais lentos. Com o tempo, quando a fase mais operacional da criação passa, ele tende a se ampliar.

Enquanto esse espaço não chega inteiro, não sei o que quero da vida pode continuar sendo a resposta, e está tudo bem. Descobrir o que eu quero da vida não precisa significar resolver hoje o resto dela. Só precisa significar não se excluir da pergunta. Um interesse que voltou à cabeça. Uma decisão da qual você costuma se excluir. Uma parte da sua história que ainda pode participar do seu futuro. Isso já é desejo ganhando voz.

Você não precisa ter todas as respostas hoje. Só não precisa mais se deixar fora da pergunta.

Silvia Motta

Silvia Motta apaixonada por comportamento e desenvolvimento humano e trabalha por mais saúde e qualidade de vida das mulheres, sobretudo as mães.

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