BLOG

Reflexões de mãe para mãe

Como estabelecer limites sem controlar nem se anular

como estabelecer limites

Os dois roteiros que a gente herdou, e por que nenhum dos dois resolve o problema

Gaia é uma gata de treze anos, mignon, com escoliose, usando roupinha boa parte do dia para proteger um machucado. Mesmo assim, quando alguém invade o terraço que ela escolheu como território, ela mostra os dentes sem dó. Luke, um gato de seis anos, grande e forte o suficiente para vencer qualquer briga da casa, aprendeu a não chegar perto dela. Debbie, outra gata da mesma casa, lida com a mesma pressão de um jeito diferente: se encolhe quando os machos se aproximam, fica com o espaço que sobra e, quando se sente ameaçada, mia até alguém da família vir buscá-la e levá-la para um lugar seguro.

Duas gatas. Duas estratégias diferentes diante da mesma pressão. Nenhuma delas está errada. Mas o custo de cada uma é diferente, e é esse o dilema de toda mulher que precisa descobrir como estabelecer limites nas próprias relações: com o filho, o parceiro, a própria mãe, um colega de trabalho.

Os dois roteiros que a gente aprende sobre como estabelecer limites

A cultura raramente ensina um meio-termo. Na verdade, ensina dois extremos opostos, e a maioria de nós aprendeu um deles antes mesmo de ter consciência disso.

De um lado, existe o roteiro do comando e controle: impor em vez de combinar, sentir que discordância é desobediência, precisar que as coisas aconteçam exatamente do seu jeito. É a necessidade de controle disfarçada de firmeza, e quem vive isso corre o risco de ser lida como pessoa controladora, mesmo querendo só proteger.

Do outro lado, existe o roteiro de ceder demais: adiar o limite esperando o momento certo que nunca chega, resolver o problema do outro antes que ele sinta qualquer falta, sentir culpa mesmo quando ninguém reclamou. Por trás disso, quase sempre, tem medo de desagradar, medo de conflito, ou a vontade de agradar todo mundo. É o mesmo motivo por trás do medo de dizer não: a sensação de que não consigo me impor sem magoar alguém.

O que a pesquisa mostra sobre os dois extremos

Esses dois padrões não são, no entanto, um traço fixo de personalidade. A pesquisa clássica da psicóloga Diana Baumrind, que mapeou estilos parentais ainda nos anos 1960, descreve exatamente esses dois extremos: o estilo autoritário, baseado em imposição e baixo diálogo, e o estilo permissivo, no qual o adulto se coloca como um recurso disponível, mas não como alguém que também tem necessidades e limites próprios. Pesquisadores brasileiros continuam usando essa mesma referência para diferenciar estilos, práticas e habilidades parentais.

Esse padrão não fica restrito à relação entre pais e filhos. A teoria da diferenciação do self, de Murray Bowen, descreve como a mesma dinâmica de fusão emocional, a dificuldade de separar o que é seu do que é do outro, aparece em qualquer relação próxima: casamento, amizade, trabalho, e também no cuidado com pais idosos. Uma revisão de estudos empíricos sobre diferenciação do self mostra essa fusão associada a mais ansiedade e menos autonomia nas relações. Ou seja: a mesma mulher pode ser rígida no trabalho e ceder demais com a própria mãe. Ou o contrário. Não é sobre quem ela é. É sobre qual roteiro está ativo, o que explica por que estabelecer limites não é traço de caráter.

Quando o limite também precisa valer para os adultos que você ama

Esse segundo extremo, o de ceder demais, costuma aparecer mais na relação com os filhos pequenos. Mas se repete, quase idêntico, em relações com adultos que a gente ama e tenta proteger.

Minha mãe tem 72 anos e precisou preencher um documento para o banco. Eu podia ter resolvido tudo sozinha e mandado só assinar. Teria sido mais rápido. Em vez disso, sentei com ela, expliquei cada campo, e checamos juntas cada resposta antes de escrever. Fizemos com ela, não por ela. No fim, configurei uma ferramenta de inteligência artificial no celular dela, pronta para ela repetir o processo sozinha da próxima vez.

É fácil, com boa intenção, colocar um pai ou uma mãe idosos numa bolha, fazendo por eles o que ainda conseguem fazer. Poupar alivia na hora, mas tira a chance de exercitar a autonomia que sustenta a qualidade de vida deles. É o mesmo mecanismo de tampar buraco que muitas mães reconhecem com os filhos: fazer antes que o outro sinta falta parece cuidado, mas às vezes é evitar a própria ansiedade diante do desconforto alheio. Estabelecer limites, nesse caso, vale tanto para os filhos que crescem quanto para os pais que envelhecem.

Estabelecer limites pessoais sem virar controladora nem se anular

Se você reconheceu os dois extremos em relações diferentes da sua vida, isso não é contradição, só prova que estabelecer limites pessoais não é habilidade fixa, que você tem ou não tem. É uma resposta que varia de relação para relação, dependendo de qual medo está mais ativo naquele vínculo: o medo de perder o controle, ou o medo de desagradar.

Por isso, o convite não é escolher um lado e forçar. Não é trocar rigidez por permissividade, nem tentar “ser mais assertiva” de forma genérica. É notar, relação por relação, qual roteiro está em ação, e perguntar: isso que estou fazendo agora está protegendo alguém, ou só está me protegendo do desconforto de ver o outro reagir?

Voltando para os gatos: o espaço que sobrou para Debbie, cuidado com intenção, virou o canto mais aconchegante da casa. Estabelecer limites nem sempre significa expandir território com os dentes à mostra. Às vezes significa simplesmente parar de fazer pelos outros o que eles já são capazes de fazer sozinhos, e confiar que o espaço que se abre para você, quando coloca e sustenta limites, também pode ser bom.

Silvia Motta

Silvia Motta apaixonada por comportamento e desenvolvimento humano e trabalha por mais saúde e qualidade de vida das mulheres, sobretudo as mães.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

CRIE SUA CONTA

Digite os dados que você utilizará para acessar a plataforma! Você não precisará preencher novamente.