A maternidade não apaga quem você é. Mas pode tornar muito difícil o acesso. E reconectar começa por entender isso.
Numa das minhas conversas sobre como se reconectar consigo mesma após a maternidade, fiz uma pergunta que costuma causar um silêncio mais longo do que eu esperado: se você tivesse uma tarde inteira só pra você, sem filho, sem demanda, sem nada que precisasse ser feito, o que você faria?
A mulher ficou quieta. Não estava pensando na resposta. Estava percebendo, ao vivo, que não sabia.
“Não sei,” ela disse depois de um tempo. “Não sei mais.”
Essa resposta não é derrota. É sintoma. E entender o que ela revela é o ponto de partida real de como se reconectar consigo mesma.
Como se reconectar consigo mesma começa por entender o que aconteceu com a identidade
Existe um fenômeno que a psiquiatra Alexandra Sacks chama de matrescence: a transformação psicológica, física e emocional que acontece quando uma mulher se torna mãe. Em um texto de 2017 no The New York Times, Sacks chamou atenção para algo que quase nunca é nomeado: a transição para a maternidade pode ser profunda, instável e cheia de reorganizações internas — um processo que ela compara à adolescência.
Na adolescência, você sabe que está mudando. Tem nome, tem marco, tem rituais de passagem. Na maternidade, a mudança também acontece, mas muitas vezes sem reconhecimento. Você vira mãe e a transformação é tratada como evento externo: nasceu o bebê. O que acontece internamente com a mulher que estava ali antes tende a ficar sem nome e sem espaço.
A parte dela que ficou? Não sumiu. Mas foi ficando mais quieta a cada escolha feita em função do filho, do parceiro, da família. E com o tempo, o volume foi baixando tanto que ela perdeu o fio.
Por que as preferências somem quando você para de praticá-las
Quando você era adolescente ou jovem adulta, suas preferências eram constantemente testadas. Você experimentava, gostava, abandonava, redescobria. Havia tempo e espaço para tentar.
Depois que a maternidade chegou, esse espaço foi encolhendo. Não de uma vez, e não necessariamente por proibição. Foi acontecendo no acúmulo de escolhas práticas: fica pra outra vez, agora não dá, depois que as crianças crescerem.
O que não é acessado regularmente vai perdendo a clareza. Não desaparece, mas fica mais difícil de alcançar. É como um caminho na mata que você deixa de percorrer: a vegetação não apaga o trajeto de um dia para o outro, mas vai cobrindo os contornos aos poucos.
Então quando alguém pergunta “o que você gosta de fazer?”, a resposta não vem imediata porque não foi ativada em tanto tempo. O silêncio não é vazio. É acesso interrompido.
Como se reconectar consigo mesma: o que não funciona e o que funciona de verdade
A resposta que o mundo geralmente dá para a mulher que chegou nesse ponto é alguma variação de: “descobre o que te faz bem.” Como se o problema fosse falta de autoconhecimento e a solução fosse uma tarde de reflexão intensa.
Não funciona assim.
Você não vai se reconectar consigo mesma apenas pensando sobre si mesma. Vai se reconectar fazendo coisas e prestando atenção no que ressoa.
Três movimentos que ajudam, sem virar projeto:
Voltar à memória, não para reviver, mas para rastrear. O que você fazia antes que te dava prazer genuíno? Não o que você “deveria” gostar. O que de fato te deixava mais leve depois de fazer. Livros, cinema, cozinhar, caminhar, conversar por horas, dançar, ficar em silêncio. Anote sem julgamento.
Seguir o que te desperta curiosidade hoje. Não o que você já amava, mas o que chama sua atenção agora, mesmo que pareça fora do personagem. Um podcast que apareceu três vezes no feed. A exposição cujo cartaz você parou para olhar. Uma receita que você quis fazer mas não fez. Curiosidade é o fio mais confiável de como se reconectar consigo mesma.
Experimentar sem precisar amar. Esse é o ponto que a maioria pula. Você tenta uma coisa, não sente o prazer que esperava, e conclui que não é isso. Mas reconexão funciona com baixa expectativa. Você não precisa encontrar a atividade perfeita. Precisa acumular pequenas experiências que te devolvam ao hábito de prestar atenção em como você se sente.
Como se reconectar consigo mesma quando a paralisação fala mais alto
Em muitas conversas, o que aparece não é falta de vontade. É paralisação diante da pergunta. “Não sei por onde começar” se torna desculpa e bloqueio ao mesmo tempo.
Eu conheço esse estado por dentro. Depois que me divorciei, os primeiros fins de semana em que meus filhos foram para a casa do pai eu praticamente fiquei deitada na cama olhando pro teto. Paralisada, sem saber o que fazer com aquele tempo livre. Tempo que eu tinha desejado tanto. E que, quando chegou, me deixou sem chão.
Foi observando esse estado que entendi o que precisava: não estava faltando uma atividade. Estava faltando presença de gente. Sair. Pegar sol. Ver movimento. Comecei a fazer contato com mulheres de um grupo de maternidade do qual eu fazia parte no Facebook e a marcar coisas para fazer na rua, mesmo sem conhecer quase nenhuma delas pessoalmente. E passei a notar o quanto eu voltava desses passeios nutrida e revigorada.
Não era sobre a atividade em si. Era sobre prestar atenção no que me fazia sentir viva.
Uma mulher que conheci viveu algo parecido em outra escala: começou lembrando que costumava ir ao cinema sozinha antes de ter filhos. Não uma rotina elaborada. Só uma memória: às vezes eu ia ao cinema sozinha, e isso me fazia bem. Ela foi. Uma vez. Saiu achando que não tinha sido tão impactante assim. Mas voltou duas semanas depois. E então entendeu que não era sobre o cinema. Era sobre retomar o hábito de se incluir na própria agenda.
Você vai descobrindo quem é enquanto faz
Você não precisa saber quem você é antes de começar a se reconectar. Vai descobrindo enquanto faz.
A identidade não volta em uma tarde de revelação. Ela vai se reconstituindo no acúmulo de pequenas escolhas de presença: uma ida ao cinema, uma caminhada sem fone, um livro retomado depois de anos parado na mesinha. Não precisa ser intenso para ser real.
Como se reconectar consigo mesma não tem uma resposta definitiva. Tem um processo. E esse processo começa na primeira vez que você para de esperar saber o que quer para fazer alguma coisa.

Silvia Motta apaixonada por comportamento e desenvolvimento humano e trabalha por mais saúde e qualidade de vida das mulheres, sobretudo as mães.
