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Reflexões de mãe para mãe

“Eu soltei e fizeram malfeito”: por que delegar tarefas é tão difícil

delegar tarefas

O que muda quando você separa o resultado que importa do seu jeito de chegar até ele

A mesma frigideira voltou quatro vezes seguidas para a pia. Lavavam por dentro e esqueciam completamente o lado de fora, onde ficava uma crosta de comida grudada que eu nem sei dizer o que era.

Tá vendo? Eu soltei e fizeram malfeito.

Se você já pensou isso, sabe que por trás dessa frase existe um medo bem concreto: se eu não disser exatamente como fazer, vai sair errado. E, se sair errado, quem vai lidar com a consequência sou eu. É por isso que soltar é tão difícil, mesmo quando a gente entende de onde vem a necessidade de controlar tudo e decide delegar tarefas que antes eram só nossas.

Só que delegar tarefas em casa não é só decidir quem faz o quê. A parte difícil começa depois: quando alguém finalmente assume, você consegue deixar que aquilo deixe de ser seu, inclusive o jeito de fazer?

“Eu soltei e fizeram errado”: a dificuldade de delegar

Aqui em casa, a louça e a roupa passaram a ser responsabilidade dos meus filhos adolescentes. E a frigideira me colocou diante de duas saídas óbvias. Lavar eu mesma, do jeito certo, e encerrar o assunto. Ou fingir que não vi, porque pelo menos alguém estava lavando a louça.

A primeira me devolvia o trabalho que eu tinha acabado de distribuir. A segunda transformava o combinado em faz de conta.

Fiz outra coisa. Como sou eu quem guarda a louça depois de seca, é ali que eu vejo se ficou bem lavada. Usei a frigideira suja para mostrar a importância de lavar por fora também. Não como acusação. Como informação: “olha, ainda falta essa parte”.

Um resultado imperfeito não prova que delegar tarefas não funciona. Muitas vezes, ele faz parte do processo de alguém aprender a sustentar uma responsabilidade que antes era sua. Para aprender, a pessoa precisa ter espaço para errar, receber informação e ajustar sem ser humilhada, algo que a pesquisadora Amy Edmondson, da Universidade Harvard, estuda a partir do conceito de segurança psicológica. Se cada falha vira bronca, o outro pode parar de tentar e voltar a esperar que você resolva.

“Mas também não vale qualquer coisa”: como delegar tarefas sem largar

Soltar não é largar. Autonomia precisa de contorno: de quem é a responsabilidade, qual resultado precisa existir e onde há liberdade para cada um encontrar o próprio jeito.

Na divisão de tarefas domésticas aqui de casa, o contorno foi uma tabela. Os dias da semana, o mês inteiro, de quem era a vez e o que eu esperava em cada tarefa. A primeira reação foi uma objeção: “E por que o seu nome não está aqui? Agora a gente vai ter que fazer tudo?” Expliquei que a tabela cobria duas atividades, não a casa inteira, e que o resto continuava comigo e com meu marido. Escolhi só duas de propósito: com mais, ficaria mais difícil para eu acompanhar e mais difícil para eles aprenderem com consistência.

Dentro desse contorno, o jeito é deles. Um tira tudo da pia e vai lavando aos poucos. O outro empilha e organiza antes de começar. Nenhum dos dois lava como eu, e tudo bem.

O tamanho do contorno muda conforme a maturidade, o repertório e a situação: quando se trata da autonomia dos filhos, ele é mais firme e mais acompanhado. E ele não se resolve de uma vez. Com os meses, os meninos relaxaram e precisei dar uma chamada de atenção geral. Faz parte: acompanhar, dar mais espaço conforme eles ganham consistência e retomar o combinado quando for preciso.

“E se o resultado vier por outro caminho?”

Meu marido tinha topado que a louça seria dele quando os meninos não estivessem em casa. Só que enrolava muito. Às vezes eu cobrava, às vezes eu mesma lavava.

Nesse meio-tempo, ele foi assumindo cozinhar, coisa que simplesmente não fazia. Ficou diferente do combinado: ele lava menos louça do que topou, eu lavo um pouco mais do que gostaria, mas quase não vou mais para a cozinha.

Se eu olhasse só para a tarefa combinada, diria que não funcionou. Mas existia uma diferença que eu ainda não tinha enxergado:

Eu queria uma coisa, que ele lavasse a louça. E precisava de outra: que a cozinha deixasse de depender tanto de mim.

Essa segunda aconteceu. Hoje estou há sete meses praticamente sem lavar louça e há uns cinco quase sem cozinhar com a frequência de antes.

Numa conversa, ele me disse que foi importante eu não ficar em cima, ser clara na expectativa e deixar que ele se virasse. Não virou chef, mas encontrou o jeito dele de ocupar esse espaço.

O que essa história me obrigou a perguntar foi: eu quero dividir a responsabilidade, ou quero que o outro assuma a responsabilidade exatamente do jeito que eu imaginei? Às vezes até aquilo que a gente chama de resultado era só a solução que imaginamos para uma necessidade maior. E a gente fica tão presa ao combinado que não percebe que a dinâmica que queria mudar já mudou.

Delegar tarefas: o que é essencial no resultado e o que é só o seu jeito

Dar autonomia não significa aceitar qualquer resultado. A frigideira suja não estava limpa, e fingir que estava não ajudaria ninguém. Mas autonomia também não sobrevive quando todo desvio do seu método é tratado como erro.

A diferença está em conseguir separar duas coisas: o que é essencial no resultado e o que é apenas o seu jeito de chegar até ele.

Na próxima vez em que você delegar tarefas e alguém fizer de um jeito diferente do seu, antes de corrigir ou assumir de volta, experimente se perguntar: o resultado que importa está comprometido, ou isso só está sendo feito de um jeito diferente do meu?

Parece uma diferença pequena. Mas pode ser justamente o espaço que faltava para outra pessoa começar a assumir de verdade aquilo que antes dependia de você.

Silvia Motta

Silvia Motta apaixonada por comportamento e desenvolvimento humano e trabalha por mais saúde e qualidade de vida das mulheres, sobretudo as mães.

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