BLOG

Reflexões de mãe para mãe

Me sinto perdida: dizer não não é o mesmo que saber o que quer

Me sinto perdida

Ficar perdida depois dos filhos não é falta de clareza. É o vão entre o que você recusou e o que vai construir.

Você já fez parte do trabalho. Saiu do emprego que não fazia mais sentido, aprendeu a dizer não para o que te esgotava, parou de aceitar tudo só para evitar conflito. E mesmo assim, de vez em quando, a frase que aparece é: “me sinto perdida”. Você fez bastante, e a sensação de estar perdida continuou do mesmo jeito.

Isso costuma confundir, inclusive você mesma. Me sinto perdida acontece quando o esforço resolve metade do problema e deixa a outra metade parada, esperando.

Me sinto perdida mesmo depois de aprender a dizer não

Recusar é mais fácil de nomear do que desejar. Você sabe dizer, com detalhes, o que não aguenta mais: o trabalho que drenava, a relação que pesava, a rotina que sufocava. Essa clareza é real, e custou esforço (ou está custando) para chegar até ela.

O problema é imaginar que recusar e desejar são a mesma coisa, ditas de formas diferentes. Não são. A recusa costuma morar no corpo antes de virar frase: um calafrio, uma ansiedade repentina, a energia caindo diante do que você não aguenta mais. Só que dizer não fecha uma porta, não abre a próxima. Entre as duas existe um vão, e é nesse vão que mora o me sinto perdida.

Estar perdida na vida, nesse sentido, não é regressão. É a fase em que o mapa antigo já não serve e o novo ainda não foi desenhado.

Por que seu cérebro trata “fugir de” diferente de “ir para”

Existe uma linha de pesquisa em psicologia da motivação que explica com precisão por que “me sinto perdida” aparece justo depois de você aprender a dizer não. O psicólogo Andrew Elliot (e colaboradores) descreveu dois tipos de meta: as de evitação, orientadas a afastar-se de algo indesejado, e as de aproximação, orientadas a mover-se em direção a algo desejado.

As duas mobilizam energia. Mas funcionam de formas diferentes. Uma meta de evitação pode ter um critério, mas o foco permanece em se afastar de algo indesejado; por isso, o alívio costuma ser breve e não há um “destino” claro para comemorar. Uma meta de aproximação, por outro lado, dá direção ao esforço. Ela informa não só o que você está deixando para trás, mas o que está construindo à frente.

É por isso que “quero parar de me sentir esgotada” e “quero construir uma rotina que me sustente” não são a mesma frase dita de dois jeitos. São dois tipos de motivação diferentes, com efeitos diferentes sobre como você se sente enquanto caminha.

Isso não torna a recusa inútil, longe disso. Saber o que você não quer mais reduz as variáveis em jogo: tira da mesa opções que não servem e facilita analisar o que sobrou, favorecendo escolhas mais alinhadas com o que importa pra você. A psicóloga Sheena Iyengar, num dos estudos mais citados sobre sobrecarga de escolha, mostrou como excesso de alternativas pode paralisar em vez de ajudar a decidir. Recusar cumpre essa função real: organiza o campo. Só que, sozinha, ela mantém você orientada pelo que quer evitar, e é justamente esse tipo de orientação que a pesquisa associa a mais ansiedade e menos sensação de progresso ao longo do tempo.

O que fazer quando você se sente perdida

A resposta mais comum para essa pergunta costuma vir em forma de lista: defina metas, faça um diário, medite. Nenhuma dessas coisas é errada, mas nenhuma resolve a raiz, porque o problema não é falta de método. É que grande parte do que você chama de decisão ainda está formulada como recusa.

Um exercício simples ajuda a atravessar esse me sinto perdida aos poucos: pegue três frases que começam com “eu quero parar de…” e reescreva cada uma começando com “eu quero construir…” ou “eu quero ter…”. Não precisa ser grandioso nem definitivo. “Quero parar de me sentir esgotada” pode virar “quero ter duas horas na semana só minhas, sem precisar justificar”. A frase muda de direção: deixa de apontar para trás e passa a apontar para algum lugar.

Vivi isso de um jeito bem concreto. Quando meus filhos deixaram as papinhas e passaram a comer o que os adultos comiam, cozinhar virou um problema aqui em casa. Eu tentava fazer o almoço enquanto o pai deles ficava com os meninos na sala, mas eles eram pequenos e, em poucos minutos, acabavam de volta na cozinha, pendurados nas minhas pernas, perto do fogão e das panelas quentes. Um deles chegou a queimar o dedo. Nada grave, mas foi o suficiente para eu perceber que daquele jeito não dava mais: eu não queria continuar cozinhando sem que os meninos estivessem seguros.

Só que essa recusa, sozinha, não resolvia o almoço de ninguém. A conversa então precisou ir além do “não quero mais”: o que a gente vai construir no lugar? Na prática, tínhamos duas possibilidades: ou ele conseguia manter os meninos fora da cozinha enquanto eu preparava a comida, ou assumia o preparo das refeições. Ele escolheu cozinhar.

Não sabia. Pediu ajuda a pessoas que cozinhavam bem, buscou vídeos na internet, foi errando e aprendendo. Hoje cozinha melhor do que eu. A recusa abriu o espaço. Mas foi a busca por uma solução real, e não apenas pela ausência do problema, que construiu algo novo.

Me sinto perdida? Talvez só falte a segunda metade do caminho

Se você chegou até aqui pensando “me sinto perdida na vida depois que meus filhos nasceram” ou “não sei qual caminho seguir”, talvez o problema não seja falta de clareza. Você pode ter mais clareza do que imagina sobre o que já cumpriu função na sua vida. O que ainda não foi feito é a segunda metade do trabalho: transformar essa clareza em uma direção, não apenas numa lista do que você não quer mais.

Como encontrar meu caminho, então, não é uma pergunta que se responde de uma vez. É uma prática de ir reescrevendo, aos poucos, as frases que começam com “não quero mais” para frases que começam com “eu quero”. Aprofundei isso um pouco mais no artigo Não sei o que quero da vida, o texto que abriu essa conversa. Clareza sobre o que evitar é o primeiro passo, não é sinal de que algo está errado com você. Mas sozinha, ela também não sustenta uma mudança real, como mostro em Por que a mudança na rotina não se sustenta mesmo quando você tem clareza.

Você não está perdida. Está exatamente no meio do caminho: já sabe o que recusa, ainda está aprendendo o que quer. E esse meio também se atravessa, um passo pequeno de cada vez.

Silvia Motta


Silvia Motta
 apaixonada por comportamento e desenvolvimento humano e trabalha por mais saúde e qualidade de vida das mulheres, sobretudo as mães.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

CRIE SUA CONTA

Digite os dados que você utilizará para acessar a plataforma! Você não precisará preencher novamente.