O modelo aprendido por trás da sobrecarga materna, e por que ela diz mais sobre a cultura do que sobre quem você é
“Ah, mas o último que lavou fui eu.” “Na minha vez sempre tem mais louça.” “Você pediu pra eu lavar a louça, eu lavei as que estavam dentro da pia.”
Essas frases fizeram parte da minha rotina durante meses. Eu tinha decidido que a louça e a roupa seriam responsabilidade também dos meus filhos adolescentes. Comuniquei, defini o dia de começar. E o que era para aliviar virou outro trabalho: todo dia uma disputa para resolver, todo dia uma tarefa feita pela metade, todo dia as mesmas orientações repetidas. A louça de dentro da cuba era lavada. A que estava no fogão ou na mesa era ignorada solenemente. A roupa ia para a máquina e ficava esquecida lá. E a juíza era sempre eu.
Talvez você conheça esse lugar. É uma das formas mais comuns, e menos nomeadas, de sobrecarga materna: você nem faz tudo, mas tudo passa por você. Lembrar, cobrar, corrigir, decidir quem tem razão. E no fim do dia sobra aquela frase que muitas mães pensam e quase nunca dizem em voz alta: se eu não fizer, ninguém faz. Ou, do jeito mais seco: se eu não fizer, não acontece.
Ela parece um traço de personalidade, uma necessidade de controlar tudo que seria só sua. Não é. Ela não nasceu em você.
Comando e controle: o jeito de fazer as coisas acontecerem que a gente aprendeu
O modo como a maioria de nós aprendeu a mover as pessoas ao redor tem nome: comando e controle. Alguém decide, os outros executam e, se não sai do jeito certo, quem decidiu corrige. Muitas vezes com uma crítica que não ajuda a ajustar nada.
Ninguém precisou nos ensinar isso numa aula. A gente absorveu. Em casa, no “porque sim, quem manda aqui sou eu”. Na escola, onde obedecer costumava valer mais do que entender por que a sua parte importava. Na religião que sua família frequentava, em que qualquer coisa era pecado e você estava sempre em dívida. No trabalho, no “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. O mesmo roteiro, em ambientes diferentes, repetido tantas vezes que deixou de parecer uma escolha e passou a parecer o único jeito possível.
E repara: eu tinha passado anos trabalhando com gestão de mudança dentro de uma empresa grande. Ainda assim, quando a louça virou disputa, o que eu fazia todo dia era lembrar, repetir e reclamar. Conhecer outro repertório não impede o automático de aparecer, principalmente quando a gente está cansada.
Duas ideias que transformam comando e controle em sobrecarga materna
Sozinho, o comando e controle já pesa. Mas na maternidade ele se mistura com duas outras ideias que a cultura também entrega prontas.
A primeira é a de que quem se esforça de verdade dá conta. Se não deu, faltou organização, disciplina, força de vontade. O problema nunca é do sistema. É sempre de quem não se esforçou o suficiente. E a mãe sobrecarregada passa a se enxergar como uma mãe desorganizada.
A segunda é o mito da mãe que dá conta de tudo: abrir mão da própria vida para a vida dos outros funcionar, estar sempre disponível, não reclamar. O velho “ser mãe é padecer no paraíso”. A pesquisadora Alana Fontenelle, da Universidade Federal do Ceará, mostra como esse ideal se atualizou sem perder o essencial. A maternidade continua apresentada como vocação natural e exclusiva, agora exigindo dedicação extrema, conhecimento especializado e alto investimento emocional, um modelo que produz culpa e sensação de inadequação nas mães.
Junte as três coisas com o seu desejo genuíno de cuidar bem de quem você ama, e a armadilha da sobrecarga materna fica pronta. Quando algo não funciona em casa, você não pensa que talvez a estrutura esteja ruim. Você pensa que a falha é sua e que precisa se esforçar mais. Lembrar mais. Cobrar mais. Controlar mais.
Sobrecarga materna: por que “se eu não fizer, ninguém faz” parece verdade
Essa frase não é só sensação. Segundo a PNAD Contínua do IBGE, em 2022 as mulheres dedicaram em média 21,3 horas por semana a afazeres domésticos e cuidado de pessoas, contra 11,7 horas dos homens: quase dez horas a mais, toda semana. Quando uma pessoa concentra tanta coisa por tanto tempo, a casa se organiza ao redor dela, e a sobrecarga materna deixa de ser exceção para virar o jeito como tudo funciona.
E aqui está o ponto mais delicado. O comando e controle pode funcionar muito bem para conseguir uma resposta imediata. O problema é quando ele vira o único jeito que você conhece de fazer algo acontecer. Ele consegue execução, mas não necessariamente constrói autonomia e colaboração. Quando vira padrão, mantém as pessoas dependentes da sua direção: elas esperam você lembrar, você decidir, você conferir. É o mesmo mecanismo que sustenta a carga mental: o todo continua sendo pensado por uma pessoa só.
Eu via isso nas respostas que recebia. “Você pediu pra eu lavar a roupa, eu lavei.” Literalmente verdade. Eles faziam o que eu tinha mandado, e nada além. Não por incapacidade, mas porque, naquele modelo, enxergar o resto continuava sendo tarefa minha. E a frase se confirmava todos os dias: se eu não fizesse, ninguém fazia.
O que muda quando você entende de onde vem a necessidade de controlar tudo
Entender a origem da sobrecarga materna não lava a louça. Mas muda a pergunta. Sair de “o que há de errado comigo?” para “como eu aprendi a funcionar assim?” tira o peso da culpa e devolve algo bem mais útil: a possibilidade de escolher.
Foi trabalhando profissionalmente com mudança que eu comecei a perceber que existiam outras formas de fazer as pessoas participarem dela. Formas que não dependiam de alguém mandando, conferindo e corrigindo o tempo inteiro, embora continue sendo necessária uma direção comum: as pessoas precisam ter clareza de para onde estão indo. Ajudar uma empresa a mudar sem quebrar tudo no processo me mostrou que pessoas são pessoas em qualquer ambiente, e que obediência e colaboração são resultados muito diferentes.
Isso não significa abandonar o comando e controle de uma vez. Nem deveria: numa emergência de verdade, a ordem direta é o que protege. O convite é perceber quando ele é a ferramenta certa e quando é só o automático falando.
Um primeiro passo possível é observar. Nesta semana, repare nas vezes em que você lembra, cobra ou corrige. Não para se julgar, mas para enxergar o padrão de fora, como algo que você aprendeu e não como algo que você é.
Porque, se controlar, cobrar e lembrar mantém todo mundo dependendo da sua direção, a pergunta que fica é outra: o que colocar no lugar?

Silvia Motta apaixonada por comportamento e desenvolvimento humano e trabalha por mais saúde e qualidade de vida das mulheres, sobretudo as mães.

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