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Reflexões de mãe para mãe

Hipervigilância materna: quando o estado de alerta vem da cultura, não de quem está do seu lado

hipervigilância materna

Você não está exagerando. Está em modo de alerta constante. E isso tem uma origem que ninguém ensinou você a reconhecer.

Segunda-feira, 7h da manhã.

Antes do primeiro café, você já está em modo alerta. Analisando o humor de quem divide a casa. Deu bom dia frio ou normal? Tem clima hoje ou não tem?

Você decide não mencionar que a conta do cartão veio alta. Não é hora.

No trabalho, responde e-mails com metade da cabeça ainda em casa. À noite, ele está de bom humor. Aproveita, fala agora. Mas você está tão cansada que engole o assunto de novo. Dorme com ele guardado.

Na terça, o ciclo recomeça.

Nenhuma briga. Nenhum drama visível. Mas você vai dormir esgotada, e não sabe exatamente de quê.

A pergunta mais óbvia seria: o que ele fez? Mas essa talvez não seja a pergunta certa. Porque a vigilância estava lá antes de ele abrir a boca. Antes de você saber como seria o dia. Ela já estava operando enquanto você ainda estava dormindo.

Existe uma palavra para isso. Ela raramente aparece em conversas sobre maternidade ou sobre relações cotidianas. Mas aparece com frequência na literatura de saúde mental para descrever algo que o corpo registra antes que a cabeça processe: hipervigilância.

O que é hipervigilância

A hipervigilância é descrita na psicologia e na neurociência como um estado de alerta elevado e sustentado, no qual o sistema nervoso permanece em modo de detecção de ameaças. É um mecanismo de defesa: o cérebro aprende que o ambiente pode ser perigoso e passa a monitorá-lo de forma constante para antecipar o que vem a seguir.

Na literatura clínica, a hipervigilância aparece principalmente associada ao transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), a quadros de ansiedade e a experiências de abuso. O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, o DSM-5, a descreve como um estado de alerta intensificado, com dificuldade para relaxar e hipersensibilidade a estímulos do ambiente.

Mas existe uma forma desse estado que recebe muito menos atenção: quando não começa com um único evento traumático, mas com um processo lento e cultural, que foi instalando um sistema de monitoramento tão profundo que a mulher nem percebe mais que está dentro dele.

Quando a hipervigilância vem de dentro, não do outro

Não é preciso ter vivido um trauma declarado para desenvolver esse padrão. No caso das mães, ele raramente começa com um evento específico. Começa muito antes.

Começa quando uma menina aprende, de formas variadas e constantes, que suas necessidades são menos importantes do que as dos outros. Que pedir é incomodar. Que cuidar significa abrir mão de si mesma. Que ser boa filha, boa aluna, boa esposa, boa mãe significa estar disponível, sem limites, sem reclamação.

Quando essa menina se torna mãe, o sistema de crenças que ela internalizou ganha novos reforços. A cultura tem critérios bastante claros sobre o que é a maternidade ideal: presença total, dedicação irrestrita, ausência de necessidades próprias. E é impiedosa nos seus julgamentos: a mãe que saiu pra se divertir, o filho que se machucou, a criança que ficou de recuperação, a profissional que tirou meses de licença-maternidade. O “tribunal da vida materna” está sempre em sessão. Os julgamentos são rápidos. E a pena é sempre a mesma: você não fez o suficiente. Esse julgamento constante alimenta também um ciclo de culpa materna que caminha ao lado desse estado de alerta, intensificando-o.

O resultado é uma hipervigilância que não é direcionada ao outro. É direcionada a si mesma.

Ela passa a monitorar a própria conduta o tempo todo: para não falhar, para não incomodar, para não dar margem a questionamentos. Esse monitoramento se torna tão normalizado que ela deixa de percebê-lo. Vira o jeito que ela existe. Uma espécie de “pedir desculpas por existir” que ela reproduz sem perceber porque aprendeu que é assim que se ocupa o espaço no mundo sendo mulher e sendo mãe.

Existe uma expressão popular que descreve bem o resultado externo desse estado: pisando em ovos. Mas os ovos não estão só em torno das outras pessoas. Estão dentro dela. Ela pisa neles em relação ao outro e em relação a si mesma, ao mesmo tempo, sem descanso.

O ciclo que prende os dois lados

E esse estado gera um ciclo que prende todo mundo.

Do outro lado do mesmo sistema cultural, o homem raramente foi ensinado, ao longo da vida, a assumir responsabilidade real pelo cuidado da casa e dos filhos. Não é uma falha pessoal: é o que a cultura, durante séculos, ensinou que seria papel de cada um. Sem dimensão do trabalho invisível que esse cuidado exige, ele percebe que o espaço já está preenchido e se retrai.

Ela interpreta a retração como desinteresse ou incompetência. Fica mais sobrecarregada. Fica ressentida por não ser vista nem reconhecida. Ele, por sua vez, sente que nada do que faz é suficiente, mesmo fazendo muito bem o que a cultura ensinou que seria seu papel, e prefere silenciar para não gerar conflito. Tudo fica por isso mesmo.

No centro desse ciclo está uma lógica que ela aprendeu a repetir sem questionar: se eu relaxar, tudo desanda.

Não porque o outro seja uma ameaça. Mas porque ela nunca aprendeu que existe outra forma de existir.

Em uma mensagem no direct do Instagram, uma seguidora escreveu com uma precisão que parece simples, mas diz muito: “Sou mãe e sinto que não consigo fazer tudo e que ainda não faço nada por mim. E meu marido, normal.” A última palavra carrega o peso de uma lógica inteira: o comportamento do marido nem é o problema nomeado. O problema está nela, sempre em dívida consigo mesma, exausta sem saber nomear de quê.

O preço que o corpo paga

Quando a hipervigilância mantém o sistema nervoso em modo de ameaça, o corpo paga um preço concreto. O cortisol, hormônio relacionado ao estresse, fica cronicamente elevado. O sistema nervoso simpático, responsável pela resposta de luta ou fuga, permanece ativado. Com o tempo, isso se manifesta em fadiga que não passa com sono, dificuldade de concentração, irritabilidade e, em casos mais prolongados, adoecimento físico.

Eu vivi isso de forma muito concreta. Dentro do meu primeiro casamento, cheguei a um ponto em que não negociava mais. Gritava. Não porque era difícil ou mal-intencionada, mas porque estava exausta de anos carregando um padrão que eu nem sabia que tinha. Tentei mudar o outro por muito tempo, como se o problema estivesse nele. Adoeci. Resistência à insulina. Burnout. O corpo foi mandando recados que eu ignorei por tempo demais.

Só depois do divórcio consegui nomear algo que estava presente muito antes do casamento começar. A vigilância que contribuiu para o meu adoecimento não nasceu naquela relação: ficou visível dentro dela. Relações são complexas, e raramente um único fator conta toda a história. Mas perceber que eu operava nesse estado de alerta independentemente do que acontecia ao redor foi uma das viradas mais importantes desse período.

Esse custo costuma ser invisível porque não tem uma causa identificável. Não uma grande briga, não um evento claro. Um modo de existir que foi se tornando tão natural que a gente deixa de perceber que está dentro dele.

Nomear o que está acontecendo é o primeiro passo possível

A hipervigilância cultural não desaparece porque você decide parar de se monitorar. O padrão foi instalado ao longo de uma vida inteira, reforçado por mensagens que chegaram de todos os lados. Desconstruí-lo leva tempo e, geralmente, requer estrutura.

Mas existe um ponto de partida acessível antes de qualquer mudança maior: nomear o que está acontecendo.

Quando você consegue reconhecer que o seu cansaço não é genérico, que é o custo de um estado de alerta que não desliga, direcionado ao outro e a si mesma ao mesmo tempo, algo muda na forma como você se relaciona com a própria exaustão. Você para de se cobrar por estar tão cansada. Começa a entender de onde vem esse cansaço. E isso, por si só, já é diferente de continuar operando no automático.

A saída não começa com uma conversa difícil. Não começa com uma mudança estrutural na relação. Começa com uma pergunta antes de reagir: o que estou monitorando agora? Existe uma ameaça concreta, ou estou antecipando uma que talvez não chegue? Com perceber que você estava escaneando o ambiente antes mesmo de saber o que encontraria. Com notar que a mente não desligou nem quando a situação passou.

Esses pequenos reconhecimentos, acumulados, são o começo de uma forma diferente de estar. Não porque o outro mudou. Mas porque você começou a questionar uma lógica que nunca foi sua para carregar sozinha.

Estado de alerta não é lugar para morar. O corpo aguenta por um tempo. A mente aguenta por um tempo. As relações aguantam por um tempo.

Mas perceber que você está nesse modo é diferente de estar nele sem saber. E nessa diferença, por menor que pareça, está o primeiro espaço para algo novo.

hipervigilância materna

Silvia Motta apaixonada por comportamento e desenvolvimento humano e trabalha por mais saúde e qualidade de vida das mulheres, sobretudo as mães.

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